quarta-feira, 11 de março de 2009


"Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever por exemplo: A noite está estreladae tiritam azuis, os astros, ao longe.

O vento da noite gira e canta

Posso escrever os versos mais tristes esta noite

Eu a quis, e às vezes ela também me quis.

Em noites como esta eu a tive entre meus braços.

Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito

Ela me quis, às vezes eu também a queria.

como não ter amado seus grandes olhos tixos

Poso escrever os versos mais tristes esta noite.

Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.

E o verso cai na alma como na relva o rocio.

Que importa que meu amor não pudera guardá-la.

A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.

Minha alma não se contenta com tê-la perdido.

Como para aproximá-la meu olhar a busca.

Meu coração a busca, e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.

Nós os de outrora, já não somos os mesmos.

Já não a quero, é certo, mas quanto a quís.

Minha voz buscava o vento para tocar seu ouvido.

De outro, será de outro. Como antes, de meus beijos

Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.

Já não a quero, é certo, mas talvez ainda a queira.

É tão curto o amor, e é tão largo o olvido.

Porque em noites como esta a tive entre meus braços,

Minha alma não se contenta com tê-la perdido.

Ainda que esta seja a última dor que ela me cause,e estes sejam os últimos versos que eu lhe escreva."
Pablo Neruda

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