domingo, 30 de maio de 2010

O MENINO PERDIDO - Pablo Neruda


O Menino Perdido

Pablo Neruda


Lenta infância de onde como de um pasto comprido cresce o duro pistilo, a madeira do homem. Quem fui? O que fui? O que fomos? Não há resposta. Passamos. Não fomos. Éramos. Outros pés, outras mãos, outros olhos. Tudo foi mudando folha por folha, na árvore. E em ti? Mudou a tua pele, o teu cabelo, a tua memória. Aquele que não foste. Aquele foi um menino que passou correndo atrás de um rio, de uma bicicleta, e com o movimento foi-se a tua vida com aquele minuto. A falsa identidade seguiu os teus passos. Dia a dia as horas se amarraram, mas tu já não foste, veio o outro, o outro tu, e o outro até que foste, até que te arrancaste do próprio passageiro, do trem, dos vagões da vida, da substituição, do caminhante. A máscara do menino foi mudando, emagreceu a sua condição enfermiça, aquietou-se o seu volúvel poderio: o esqueleto se manteve firme, a construção do osso se manteve, o sorriso, o passo, o gesto voador, o eco daquele menino nu que saiu de um relâmpago, mas foi o crescimento como um traje! Era outro o homem e o levou emprestado. Assim aconteceu comigo. De silveste cheguei a cidade, a gás, a rostos cruéis que mediram a minha luz e a minha estatura, cheguei a mulheres que em mim se procuraram como se a mim tivessem perdido, e assim foi sucedendo o homem impuro, filho do filho puro, até que nada foi como tinha sido, e de repente apareceu no meu rosto um rosto de estrangeiro e era também eu mesmo: era eu que crescia, era tu que crescias, era tudo, e mudamos e nunca mais soubemos quem éramos, e às vezes recordamos aquele que viveu em nós e lhe pedimos algo, talvez que se recorde de nós, que saiba pelo menos que fomos ele, que falamos com a sua língua, mas das horas consumidas aquele nos olha e não nos reconhece.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

OS AMIGOS AINDA SE CONTAM NOS DEDOS



OS AMIGOS AINDA SE CONTAM NOS DEDOS...

Chorar não resolve, falar pouco é uma virtude, aprender a se colocar em primeiro lugar não é egoismo. Para qualquer escolha se segue alguma consequência, vontades efêmeras não valem a pena, quem faz uma vez, não faz duas necessariamente, mas quem faz dez, com certeza faz onze. Perdoar é nobre, esquecer é quase impossível. Quem te merece não te faz chorar, quem gosta cuida, o que está no passado tem motivos para não fazer parte do seu presente, não é preciso perder pra aprender a dar valor, e os amigos ainda se contam nos dedos. Aos poucos você percebe o que vale a pena, o que se deve guardar pro resto da vida, e o que nunca deveria ter entrado nela. Não tem como esconder a verdade, nem tem como enterrar o passado, o tempo sempre vai ser o melhor remédio, mas seus resultados nem sempre são imediatos.
Charles Chaplin

Um dia tudo será como deve ser...


Um dia tudo será como deve ser...

Dedos entelaçados, num gesto verdadeiro,
Apenas dois corações, almas, segredos,
caminhando pelas ruas, sem ligar pra mais ninguém
Beijos dados no fim da noite,
compartilhando um único desejo, de mais tempo
para estar sob as estrelas...
Abraços sem motivo, olhares disfarçados
só pra mais uma vez, ver ao lado quem sempre se quis
Sonhos, olhares, risos sem razão...
Um dia tudo será como deve ser...
Uma criança com um olhar que eu ainda não conheço,
e com seu sorriso que ainda não amei,
Simples, assim, amor, vida...
Sem perfeição, mas com calor, alegria,
bons momentos, maus momentos...
Mas com calor, alegria, cumplicidade,
e antes de tudo Verdade, tanta Verdade que vem de quem aprendeu
a andar sempre pelo Único Caminho...
Ainda é cedo, tantos pedaços estão partidos...
Já é tarde, tantos sonhos foram perdidos
Mas um dia tudo será como deve ser...

sábado, 8 de maio de 2010

O Mundo dos Normais


Nós seres humanos (estou me incluindo) sempre temos muita coisa pra falar, sempre temos uma opinião forte e feita sobre qualquer drama e conflito humano, mesmo e principalmente dos que nós nunca vivemos ou experimentamos na pele... achamos que sabemos o que aquela pessoa viveu, sentiu, ouviu, somos todos psicólogos beirando a reencarnação de Freud, sabemos TUDO, de tudo e de todos, sabemos exatamente a dor e a alegria que todos trazem no coração, sabemos da história de vida, dos momentos que roubaram pedaços de um coração, das lágrimas que alguém derramou sozinho, dos diálogos íntimos e dolorosos que tiveram no meio de conflitos, das palavras frias e duras que ouviram sem saber porque, sabemos tudo (me incluo) somos a reencarnação Freudiana que tudo explica, tudo vê e tudo sabe!

Nós sempre (continuo me incluindo) gostamos de falar de pessoas e seus dramas,talvez isso explique o porque das novelas serem absoluto sucesso nacional, olhar pra vida dos outros é muito mais fácil do que olhar pra minha, tirar o cisco do olho do outro, é mais fácil do que se livrar da trave que tapa o meu completamente...

Nós (eu também) sempre pensamos que quando alguém está no meio de um drama, é porque essa pessoa tem "algum problema", já que, com gente "normal" essas coisas não acontecem, o sofrimento, os planos frustrados, o inesperado, a dor, não são pra gente normal... Gente normal? ser normal é estar sempre sorrindo, sempre feliz, sempre perfeito, o corpo, o cabelo, as unhas, a roupa, a vida e os planos, os negócios e a vida, o comportamento, a sensatez... tudo deve ser perfeito pra quem é normal, ainda mais pra quem é cristão, Cristão não sofre, afinal de contas, não erra, é santo, é separado, tem a marca da promessa, nasceu pra ser cabeça porque deveria passar dias de "calda"... passar constrangimento, humilhação, ou sentir medo? Cristão é mais que vencedor... não é essa a referência de Cristo que estamos seguindo? só não parece muito com a de Isaias, que falou de Um Homem de dores e que sabe o que é padecer, que não tinha beleza que agradasse aos olhos, que tomou enfermidades e dores sobre si, ou o Cristo dos evangelhos, que lavou os pés dos discipulos, conversou com prostituas e ladrões, chorou... ficou triste, precisava ficar sozinho as vezes... e no fim carregou uma cruz, sei lá... de que Cristo estamos falando... mas é confortável ter o olhos fechados... a luz quando chega num lugar escuro faz os olhos arderem, quase cega, as vezes até cega como aconteceu com Saulo, só que depois até o nome dele mudou... mas doeu... e gente normal ainda mais cristão não pode sentir dor... então, é mais fácil continuar fechando os olhos, defendendo os erros porque gostamos mais daquele que errou do que daquele que foi machucado, achando que a idéia que tinhamos da pessoa é imutável, já sabemos de tudo, não pode ter havido engano, achamos que os erros devem ser esquecidos ao invés de tratados, que fingir que nunca aconteceu faz tudo sumir, mas dizer que árvore não é árvore não anula a verdade... fugir e fingir, não faz sumir o que precisa ser limpo, curado, e transformado... só esconde, mas uma hora aparece de novo... é a Lei natural.

Só quem vive, sabe o que viveu, só quem ama, sabe o quanto amou,
Só quem ouve, sabe o que escutou, só quem vê, sabe o que viu...

Fora quem vive, só existe Uma Onisciência e Onipresença no mundo, e não sou eu... então, quero aprender a reconhecer quem sou, dependente, minuscula, nada... nada mais que nada... parar de achar que sei o que se passa na cabeça e no coração dos outros... parar de achar que sou melhor que alguém, parar de achar que o perdão não deve ser uma escolha, parar de sofrer por não ser entendida ou acreditada, afinal, no final, vai importar a opinião de Quem realmente tudo vê e tudo sabe... é pra Ele que se vai prestar contas... É ele que escreve o drama da minha e das nossas vidas no seu livro... escolho perdoar, em meio a dor, a raiva, e a frustração... porque? não sei... talvez só pra ser livre... talvez só por mim mesma, talvez porque tenha aprendido algo de verdade, talvez porque eu um dia tenha ouvido a Voz mais Terna do mundo, a Voz Onisciente e Onipresente e depois disso meu mundo mudou pra sempre...