quinta-feira, 10 de setembro de 2009



ME FALTA tempo para celebrar teus cabelos.
Um por um devo contá-los e elogiá-los:
outros amantes querem viver com certos olhos,
eu só quero ser teu cabeleireiro.
Na Itália te batizaram de Medusa
pela arrepiada e alta luz de tua cabeleireira.
Eu te chamo de minha travessa emaranhada:
meu coração conhece as portas de teu pelo.
Quando te extravias em teus próprios cabelos,
não me olvide, lembra que te amo,
não me deixe perdido partir sem tua cabeleireira
pelo mundo sombrio de todos os caminhos
que só tem sombra, de dores transitórias,
até que o sol suba a torre de teus pelos.
PABLO NERUDA
O Poço

Cais, às vezes, afundas em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues voltar, trazendo restos
do que achaste pelas profunduras da tua existência.
Meu amor, o que encontras em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,rancorosa e ferida?
Não acharás, amor,no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.
Não me temas, não caias de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.
Radiosa me sorris e minha boca fere.
Não sou um pastor doce como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.
Dá-me amor, me sorri e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,não me firas a mim porque te feres.

Pablo Neruda