quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O Poço

Cais, às vezes, afundas em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues voltar, trazendo restos
do que achaste pelas profunduras da tua existência.
Meu amor, o que encontras em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,rancorosa e ferida?
Não acharás, amor,no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.
Não me temas, não caias de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.
Radiosa me sorris e minha boca fere.
Não sou um pastor doce como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.
Dá-me amor, me sorri e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,não me firas a mim porque te feres.

Pablo Neruda

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